Vindima 2016 – Colheita de uvas com Padié

Preparo

Ter clara a Intenção é o início da realização
Fazer…. Aprender fazendo… se apropriar dos movimentos, deixar o conceito filosófico se impregnar do sol, do suor e do trabalho diário…. práxis !
A construção do conhecimento vem do amálgama entre teoria e prática feitos pelas mãos humanas. Num livro sobre o Sandokai, uma das obras de base do Zen, li durante a vindima: “Quando você faz alguma coisa com  uma intenção baseada na ideia que será útil ou inútil,  bem ou mal, mais ou menos apreciada, sua compreensão é imperfeita. A prática verdadeira é quando você faz o que existe por fazer sem a ideia de bem ou mal, de sucesso ou derrota.” S. Suzuki.

900 km de purificação rodoviária de Paris ao Calce permitiram desconectar da metrópole e conectar aos poucos à terra….. Num Fiat 500 minúsculo, isso foi mais complicado que o previsto, parando a cada 400km para encher o tanque…

Chegada ao Calce e a adversidade

Lá tudo é quase NO-FI, 0,5G, muito face-to-face book, e Granache GO….

Incend1

Incend2Na manhã que iniciaríamos a vindima, acordamos em Estagel com o barulho de um helicóptero, habituado com essas máquinas voadoras e consciente do lugar onde estávamos a conclusão foi única: aconteceu alguma coisa de urgente. Fomos tomar café e croissant no bar do vilarejo: incêndio no Calce… só falavam disso. Pegamos o carro e seguimos pela belíssima e pitoresca estrada D1 em direção à D18…. subindo e vendo a fumaça, e hidroaviões de combate a incêndio da Bombardier/ Canadair … o coração estava inquieto…. chegando ao col da Donna não pudemos pegar a D18 pois a estrada estava interditada pelos bombeiros. Demos a volta, chegamos ao Calce, Jean-Philippe Padié e sua equipe estavam preocupados com os vinhedos…. fomos com eles vistoriar as parcelas próximas ao fogo…  conversar com os bombeiros, ainda presentes finalizando seu trabalho de extinguir o fogo. Uma parcela tocada pelo fogo outras inutilizadas pelo produto “inerte” utilizado pelos aviões Canadair, ….  Caminhando calmo por entre as vinhas vermelhas lavadas pelo oxido de ferro, Jean-Philippe analisa, observa, não se exalta, caminha mais, prova uvas, conversa conosco, vamos a outra parcela a pé…. observação minuciosa dos cachos de uvas e das folhas em diversas posições da parcela…. conclusão: essas parcelas não serão colhidas este ano… Incêndio criminoso: ciclistas viram uma pessoa de moto colocando fogo, não conseguiram anotar a placa…. Isso acontece muito na região: casos de pirômanos, casos de bombeiros doentes mentais que visam seu pagamento por hora trabalhada, etc etc… Acho que quem ficou mais assustado fui eu, no dia seguinte 6:30 da matina já estavam todos prontos e a postos pro primeiro dia de vindima !!!!

Nos vinhedos, a diversidade de origens, de solos e de uvas

O vinho natural começa a ser feito: 7:00 horas da manhã, cortar, colher, cortar, colher, cortar, colher , com muito cuidado… tudo feito à mão… por gente que adora o vinho, o Calce e o Jean-Philippe.
Feito em grupo, sempre em grupo, um grupo de umas 15 pessoas que colhem um dia nas parcelas do Jean-Philippe Padié e outro numa do Olivier Pithon. Espanhóis, franceses, italianos, brasileiros, finlandês, belgas, afegão, catalões e até parisienses compõe esse grupo. não dá pra ter uma língua comum a todos, cada pequeno grupo encontra a sua, no final parece que falamos catalão… Os sorrisos, o cuidado e as conversas aos pés das videiras aparecerão mais tarde dentro das garrafas, espero… Cada pequena parcela, com exposição diferente, subsolo diferente e posição distinta alargam o raio de trabalho do grupo, indo de uma para outra seguindo a guia do Jean-Philippe de acordo com as maturidades desejadas e as uvas destinadas para cada vinho a ser feito. Diversidade de castas, existem parcelas onde as variedades estão misturadas, os colhedores precisam identificar a certa e cortar+colher ! Grenache Blanc, Grenache Gris, Syrah, Muscat, Carignan Noir, Mourvedre, Maccabeu…. e a lista não tem fim….

Vinha

Depois de colhidas colocam-se em caixas plásticas (limpas e desinfetadas todos os dias antes de utilizá-las), que são transportadas à cave o mais rápido possível….

Na Cave… levain , prensagem, e limpeza

Vendanges 2016 - Padié - 3 of 4O levain, fermento natural preparado antecipadamente, que no caso do vinho eu brinco de chamar de levin, é uma beleza… escolhendo uvas que permitam uma fermentação rápida baseado na micro fauna e flora presentes na parcela que será colhida. Chegando à cave, desengarçamos os cachos e colocamos em tanques de dimensão suficiente para uma pessoa poder pisar dentro. Depois de uns cinco minutos pisando, ouvindo uma playlist especial do Padié :-) , colocamos o resultado num tanque de fermentação, adicionamos um pouco de SO2 para proteção do levain e é só aguardar alguns dias… o fermento de base está pronto. Isso se faz uma vez para os brancos e uma vez para os tintos apenas. Fizemos os dois….

No caso da prensagem, após chegarmos com as uvas nas caixas  as colocamos direto na prensa pneumática, enchendo o reservatório, lançamos a prensagem que demora cerca de 3 horas para um volume de 95 caixas de uvas. A prensagem é suave crescendo a pressão delicadamente e pausadamente no tempo, apenas para romper as membranas e retirar o suco e não para se esmagar as uvas.

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Da prensa o suco segue por bombeamento até os tanques de inox para a fermentação. Neles serão colocados um pouco de levain….

Depois disso tudo feito, limpeza com água e desinfecção com uma solução diluída de soda-cáustica e ácido tartárico, importantíssima e rigorosa para vinhos naturais.

Almoço coletivo

Depois de um dia duro de trabalho uma refeição farta com produtos da região e vinhos do Padié, do Gauby e de outros vinhateiros da região… todos os dias assim, todos os dias diferentes, todos os dias…

rango

Observações:
– É claro que no vinho “convencional” o levain não existe, pois se utilizam fermentos industriais selecionados em função do efeito desejado.

Além de tudo isso, algumas fotos da subida ao pico do Canigou (2784 m) – batismo de Catalanidade !!