Garrafa Desasnada 10 – Garrafas: formas, volumes, curiosidades

Desasnar o vinho …. não é fácil, pois com ou sem intenção muitos pontos importantes são ocultos ao bebedor comum, reles mortal….
Desasnar é descomplicar … DESASNANDO as GARRAFAS

Magnum, Jerô, Litrão, borgonha, flute,… tem tantos tipos de garrafas…

História breve “au sauce livre”

Fontes inglesas, francesas e italianas divergem, como esperado, quando o assunto é quem começou com as garrafas de vinho feitas de vidro….  Aqui eu separo em dois usos: 1) servir vinho e 2)transportar vinho.

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“Bouteille au blason” meio do século XIV Síria ou Egito. Museu do Louvre

1) garrafas de vidro para servir vinho, são utilizadas desde o domínio da técnica do vidro soprado. Encontra-se exemplares de garrafas de vinho em diversos museus indicando seu uso pelos romanos e pelas populações do oriente médio já no início de nossa era. Existe um garrafão protegido por vime da época faraônica no Egito antigo, exatamente como as garrafas de Chianti de mesa hoje. O uso, muito em função da raridade e da técnica necessária (dureza e fragilidade do material) para fazê-las era restrito a banquetes e momentos de ostentação. Existem estudos que apontam para o conhecimento das funções inertes do vidro como recipiente de vinho em contraste claro com as ânforas betuminadas ou não. Já no século IV, as garrafas quatro pomos e o garrafão coberto de vime, já eram comuns nas tavernas para servir o vinho. No porão da igreja de S. onion-bottleSegemondo em Cremona foi encontrada uma garrafa em vidro soprado de Murano, um dos núcleos de técnica de sopro de vidro, datada de 1492. O pirata, naturalista, alquimista e diplomata inglês Sir Kenelm Digby é considerado por muitos como o “pai” da garrafa de vinho moderna, então cilíndrica, com um gargalo reforçado, espessura maior e vidro fumê, até então já existiam “Garrafas cebola”, esféricas como a da foto ao lado. Conta-se que em 1961 foi aberta uma garrafa de Steinwein 1540, eu não vi, não bebi, e não conheço ninguém que bebeu….

 

2) transportar vinho, exatamente com o inglês Sir Kenelm Digby, possuidor de usinas de carvão, o vinho do Porto necessitando ser transportado para os financiadores ingleses, em 1667 criou uma garrafa cilíndrica, de vidro muito escuro…  na França em maio de 1728 o rei liberou o transporte de champanhe em garrafas, o que era proibido até então para evitar falsificações. Daí começou o transporte de vinho em garrafas. Interessante notar que do barril para a garrafa existia toda uma preocupação com a origem e a autenticidade do vinho, atualmente transportar em grandes recipientes volta à ser viável pois as questões de outrora não existem mais, mas hoje em dia encontramos barreiras alfandegárias à essa prática.

ALGUNS Formatos – pensando a forma

Existem infinitos formatos de garrafas possíveis, mantidas pela tradição ou criadas por marketing, a questão passa a ser: quais são realmente fabricadas e utilizadas? Após muita leitura e muitas garrafas provadas :-) Utilizaremos uma classificação francesa com quatro garrafas de base mais seus derivados e uma classificação “outras regiões” e as referências são indústrias fabricantes de garrafas de vidro em atividade. (Engenheiro tem que ter projeções e cotas, mesmo das garrafas :-))

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Bordeaux

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Borgonha

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Champanhe

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Flute

 

 

 

 

 

 

 

 

derivadas da Bordeaux > é a grande base das garrafas utilizadas no mundo,  antigamente elas eram cônicas mas não era prático para transportá-las, então o formato cilíndrico foi adotado.

derivadas da Borgonha > Barolo, Loire (“La Ligérienne”), Pinot Noirs e Chardonnays do novo mundo, etc

derivadas da Champagne > espumantes, pet.nats, cavas, astis, etc

derivadas da Flute da Alsácia > que tem forma específica protegida por um decreto de 1955, Mosel, Reniana, alguns vinhos alemães e suíços, etc

outras regiões e países

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volumes e nomes

Os nomes de volumes seguem ou são similares as garrafas da Borgonha, com alterações regionais, que não vejo muito interesse de entrar no “exotismo superficial” de nomes e volumes.

As mais usadas, são nesta ordem, garrafa normal, meia-garrafa, magnum, Jeroboam (Jerô), e em alguns lugares existe o Litrão….

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Além dos nomes/volumes citados, encontramos regionalmente:
– Clavelin (620 ml, e 310 ml)
– Fiasco de Chianti (500 ml, 750ml, 1l, 1500 ml, 2 l)

cores

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Cores de garrafa, como no caso dos formatos existe uma infinidade, basta alterar o pigmento do vidro e boa… para que não lembra a febre no Brasil dos “vinhos da garrafa azul”, está aí nessa lista de cores de um produtor:-)

Resumindo um pouco todas essas cores temos:
– branca/transparente: usada comumente nos vinhos jovens, rosês e em alguns brancos
verde e marrom: em várias tonalidades, são de longe as mais utilizadas protegendo assim o vinho da luz
amarela: usada nos vinhos amarelos do Jura na França
azul: usada em alguns vinhos alemães, franceses (vi uma esta semana na Quincave)

Curiosidades
  • Diz a lenda que a garrafa Frontignan do Muscat, foi torcida por Hércules de passagem pelo sul da França de agora.
  • As garrafas azuis do Liebfraumilch, existem mesmo na Alemanha e não foi somente uma jogada de marketing no Brasil ….
  • jimmio Jimmy Hendrix adorava o vinho português Mateus, com sua garrafa Franken
nossos produtores

Os volumes especiais não são utilizados em todos os vinhos.
Colombière – garrafa tipo Borgonha, magnum
Foulaquier – garrafa tipo Borgonha
Ginglinger – garrafa Flute da Alsácia, magnum
Mortier – garrafa tipo Borgonha
MIlan – garrafa tipo Borgonha, magnum
Padié – garrafa tipo Borgonha, magnum
Pithon – garrafa tipo Borgonha, magnum, jeroboam
Pothiers – garrafa tipo Borgonha, magnum
Sénéchalière – garrafa tipo Borgonha

Algumas Fontes para mais leituras

Indústrias produtoras de garrafas: Veralia, Saverglass, O-I glasses,

Catálogo de 1906 de uma indústria produtora de garrafas de vinho nos EEUU, pdf

Garrafas de champagne, link