Garrafa Desasnada 12 – Castas modestas esquecidas

Desasnar o vinho …. não é fácil, pois com ou sem intenção muitos pontos importantes são ocultos ao bebedor comum,  resumindo…

Desasnar é descomplicar … DESASNANDO as CASTAS MODESTAS ESQUECIDAS

“-Que uvas são modestas?”, “- Modesto é depreciativo?”,  “uva boa é a que produz muito e não pega doença…”, “- Uva é tudo igual” são frases que já ouvi…. isso me fez aprofundar um pouco o trabalho de centenas de pequenos vinhateiros na França e também a composição dos cortes de nossos vinhos, e suas razões de fundo…

“… as uvas verdes, são os bens da raposa.”
Os Chapéus transeuntes, Estas Estórias, 1978, Guimarães Rosa

CASTAS MODESTAS
Rencontre des cepages oubliees et modestes.jpg

Livro lançado na França em 2016

Foi lançado em 2016 o segundo livro de André Deyrieux sobre as castas modestas e esquecidas. Trabalho de formiguinha e de muitas formiguinhas: cada vinhateiro que luta para manter vinhedos de uma dessas castas é uma dessas formigas operárias.

Oferecer novas perspectivas sobre o gosto do vinho e sobretudo sobre a preservação da diversidade. Como encarar o aquecimento global? O livro apresenta retratos de diversos vinhateiros que trabalham para perenizar seus vinhedos e as suas diferenças.

“Modestas não é depreciativo nem pejorativo. A ‘”modéstia” se opõe à “nobreza” em ampelografia, estudo das variedades de uvas, esta “nobreza” é dita de várias castas: a Pinot noir, a Chardonnay, a Merlot, a Cabernet sauvignon, a Riesling, etc… — que podem fornecer vinhos extraordinários quando estão em suas terras preferidas. Mas como elas são chamadas de “nobres”, elas foram retiradas de seus berços originais e elas foram se divertir (e/ou perder sua alma?) no mundo inteiro.

É importante considerar a modéstia deste caso como um valor humano, extremamente respeitável. Um valor para o futuro, um valor durável. A modéstia ampelográfica não visa a competição, nem o sempre melhor, nem o sempre mais. Afirmação proveniente de fundamentos simples e autênticos, ela reivindica uma existência assumida, determinada, e recusa os superlativos, ela busca uma verdade local, uma história de algum lugar.

As castas “modestas” estão bem na casa delas, reflexo da relação íntima e insubstituível entre a natureza de um local preciso e um ser humano, o vinhateiro, que acredita estar fazendo algo que lhe convém, continuar a escrever o seu melhor texto na continuação de uma página começada há muito tempo”

Jean Rosen,  “Petit Verdot”, vice-presidente dos “Encontros das castas modestas”
tradução Livre

 

Vários de nossos parceiros e amigos vinhateiros seguem belos trabalhos de recuperação de castas e desenvolvimento de vinhos com castas tidas como modestas, ou esquecidas. Assim nascem criações, este é um dos momentos em que o agricultor torna-se artista criando junto com a natureza cores, aromas e sabores únicos.

Com isso a Garrafa Livre, e seus clientes, contribuem para a manutenção dessas castas, para o projeto desses vinhateiros, para a diversidade de castas e para a diversidade de gostos.

Castas nos nossos vinhos

Atualmente contamos com 32 castas presentes nos nossos 35 vinhos, parece quase uma casta por vinho mas não é, existem cortes complexos onde diversas uvas estão juntas. Delas 19 são consideradas modestas. Proporcionalmente a presença das castas em nossos vinhos segue em um word-map….

wordle-garrafa-2017

Mapa da diversidade de castas presente no portifólio Garrafa Livre em Jan 2017

Castas Esquecidas e modestas nos nossos vinhos

Ordenamos as castas presentes em nossos vinhos por área de vinhedo na França:

Bouysselet  B (menos de 3 hectares na França): Antiga casta de Villaudric redescoberta por Philippe e Diane Cauvin em um lote de 60 videiras pré-philoxera de mais de 200 anos que foram identificadas no terreno de um habitante do vilarejo. Com a autorização do morador, os Cauvin enxertaram manualmente uma parcela de 2300 pés de Negrette de 15 anos para recolocar esta casta histórica em produção. O único produtor no mundo inteiro é La Colombière, mais exclusivo que isso não dá! Vinho seco e frutado com aromas delicados de cítricos, de pera, maçã verde, frutas exóticas. Presente nos nossos vinhos: Le Grand B

Tourbat B : (menos de 33 ha em toda a França) sinônimo da Torbato B, Malvasia, (ou Pinot gris utilisado por exemplo no Vale do Loire). Utilizada no Roussillon , traz fineza, riqueza e complexidade aos VDN (vinhos suaves naturais) nos quais ela entra na composição. Sua maturação tardia a empurra para terroirs muito quentes. Sua acidez cria vinhos com forte potencial de guarda.  Presente nos nossos vinhos: Milouise

Len de l’El B  (menos de 629 ha na França): O “Len de l’El” (“loin de l’œil”), é uma das castas mais antigas da França, e subsiste no vinhedo francês na AOC Gaillac. Robert Plageoles e Fernand Cousteaux defendem a idéia que esta casta provém de vinhas selvagens na floresta de Grésigne. É uma casta vigorosa e produtiva que dá vinhos secos, perfumados, mas pouco ácidos. Vinificada sob véu, ela dá notas de nozes frescas e de maçã. Vinificada em vinho suave, a paleta aromática se expande, indo de frutas exóticas a pera. Presente nos nossos vinhos: Les Jacquaires

Négrette N (menos de 1170 ha na França): origens no Sudoeste da França (Gaillac, Fronton), faz parte tambem das castas da AOC  fiefs-vendéens no Vale do Loire. Ela dá vinhos de qualidade, muito agradáveis, muito aromáticos, geralmente com poucos taninos, pouco ácidos, logo a serem bebidos novos. A Négrette aporta aromas de borracha queimada, de cassis, de morango, de jasmim, de alcaçuz e de violeta. Presente nos nossos vinhos: Vinum, Réserve, Bellouguet

Pinot blanc B (1265 ha na França): variedade branca do pinot noir, verde mais escuro com reflexos dourados, por muito tempo era uma casta pouco conhecida fora da Alsácia. Marcada por uma grande suavidade, ela dá um vinho branco seco, muito equilibrado, macio sem deixar de ser vivo e nervoso. É utilizada também no  crémant d’Alsace. Presente nos nossos vinhos: Pinot Blanc

Folle blanche B (menos de 1468 ha na França) : esta casta era usada na produção do Armagnac e do Cognac, hoje dando lugar à Ugni Blanc. Com base em analises de DNA públicas, a Folle Blanche teria como ascendente a Gouais blanc. Faz parte doas castas da AOC gros-plant-du-pays-nantais. Dá um vinho ácido, brilhante, pouco alcoólico, de gosto neutro. Os destilados feitos com esta uva são bastante refinados, agradáveis de aroma e para beber. Presente nos nossos vinhos: Folle Blanche

Grenache gris G (1574 ha na França): A Grenache gris G é utilizada sobretudo na elaboração de vinhos suaves naturais e entra na produção de vinhos “gris” nas areias do litoral mediterrâneo.  Presente nos nossos vinhos: Milouise, Cuvée Laïs Blanc

Roussane B (1629 ha na França): A Roussanne B dá aos vinhos um refinamento e uma complexidade com aromas florais e frutados de mel, de rosa-mosqueta, de damasco, potentes com um belo equilíbrio ácido e que estão prontos para envelhecer. Esta casta permite valorizar e revelar os bons terroirs. Presente nos nossos vinhos: Le Grand Blanc

Mauzac B (1842 ha na França) : casta multiforme originária da região de Gaillac, a Mauzac é muito presente no vinhedo do Sudoeste francês. De maturidade tardia, ela é medianamente vigorosa mas muito produtiva. Ela é utilizada principalmente como casta secundária em certas AOCs do Sudoeste e de Bordeaux, ela aporta aromas florais (violeta e jasmim), de mel e de frutas (maçã). Infelizmente tem sido substituído no vinhedo francês pela Sauvignon. Presente nos nossos vinhos: Les Jacquaires

Macabeu B (2263 ha na França) : de origem espanhola foi introduzida no Roussillon (Cataluña Nord) há muito tempo atrás. Sinônimos : Maccabeu, Maccabéo, Maccabéou. Com o envelhecimento ela se torna notável. Presente nos nossos vinhos: Milouise, Tourbillon de la Vie Branco, Cuvée Laïs Blanc

Clairette B (2284 ha na França): Uma das castas mais antigas do sul da França, a encontramos hoje em diversos vinhedos meridionais – na clairette-de-die, ela é cortada com no mínimo 75% de Muscat Petits Grains -, mas seu terroir preferido é o vale do Hérault de onde ela é originária na região AOC clairette-du-languedoc. Ela pode ser vinificada em seco, em espumante, em vinho suave natural e se o grau de maturidade das uvas permitir, em rancio , após três anos de envelhecimento para um vinho com no mínimo 14°. Os vinhos são completos, encorpados, muito agradáveis e conservam nos primeiros anos um gosto pronunciado de fruta. Os vinhos secos trazem aromas da garrigue (vegetação costeira do Mediterrâneo), os suaves tomam com a idade gosto e aroma notável de rancio. Presente nos nossos vinhos: Milouise

Muscat d’Alexandrie B (2636 ha na França): A Muscat d’Alexandrie B permite elaborar vinhos suaves naturais com aromas potentes, elegantes e florais. O potencial de açúcar desta casta não pode se exprimir se não estiver em regiões com clima adequando às suas exigências. A  Muscat d’Alexandrie B pode igualmente servir para a produção de vinhos secos, e até espumantes, ou em corte para trazer aromas mais fortes. Presente nos nossos vinhos: Milouise

Pinot gris G (2749 ha na França): Uvas mais escuras, de um rosa pastel, nada a ver com os Tokays da Hungria. A apelação tokay não é mais autorizada na França mas o nome composto tokay-pinot gris foi tolerado até 2007. Rica e sofisticada, inebriante, opulenta e encorpada, com frutas discretas, gosto de terra, de bosque, defumado, de ótima guarda. Presente nos nossos vinhos: Pinot Gris, Hors Pistes

Rolle B (4 297 ha na França) : Originária da Itália , onde é chamada Vermentino ou Malvoisie, seus cachos normalmente brancos ficam rosados se muito maduros. É uma casta vigorosa mas bastante sensível ao vento, que se dá bem em regiões quentes, sobre um terreno seco.  Ela produz vinhos brancos de boa estrutura, equilibrados, pálidos, com aromas de rosa-mosqueta, de camomila, avelã, maçã e pera. Sem muito potencial de envelhecimento, os vinhos brancos com ela produzidas tem pouca acidez. Presente nos nossos vinhos: Le Grand Blanc

Grenache blanc B (5128 ha na França) : Muito presente nos cortes de brancos do sul da França. A Grenache blanc B serve para a elaboração de vinhos suaves naturais mas permite também criar vinhos secos interessantes, longos na boca, com bastante matéria e sendo amplos mas às vezes com pouca acidez. Presente nos nossos vinhos: Milouise, Cuvée Laïs Blanc, Le Grand Blanc

Muscat à petits grains B (7734 ha na França) : De origem estimada na Grécia, esta casta permite fazer vinhos brancos secos, vinhos suaves naturais e vinhos espumantes. Ela pode ser usada em cortes em pequena porcentagem para trazer notas aromáticas mais complexas. A Muscat à petits grains blancs B tem um potencial de açúcar elevado com um bom equilíbrio de acidez e um sabor intenso, poderoso e delicado. Presente nos nossos vinhos: Milouise, Le Grand Blanc

Melon B (11157 ha na França) : Chamada também de « melon de Bourgogne », pois é uma antiga casta da Borgonha. Segundo análises genéticas ela é o resultado do cruzamento natural entre a Pinot e a Gouais. Encontramos esta casta nos vinhos do muscadet, muscadet-sèvre-et-maine, muscadet-côteaux-de-la-loire, muscadet-côtes-de-grandlieu.Ela pode gerar um vinho branco equilibrado, fresco, leve, agradável mais ou menos ácido, com aromas discretos, para ser consumido jovem ou de guarda. Esta casta trás uma rica paleta aromática como por exemplo com aromas de amêndoa verde, de limão siciliano, de capim-limão / citronela, de marmelo, de especiarias, de iodo / mar, de amora, de notas de anis, de notas de mel… Presente nos nossos vinhos: La Bohéme, MissTerre, Nuitage

Cinsau(l)t N (18709 ha na França): A reputação desta casta é um pouco lisonjeira, pois ela conduz normalmente a um vinho pouco ácido e muito claro.  Ela é utilizada principalmente na produção de rosês.  Contudo, bem explorada ela pode produzir vinhos de belas cores, flexíveis, com uma paleta aromática simples mas eficaz (amêndoas, avelãs, framboesas). Envelhecendo ela adquire uma riqueza  e refinamento e merece o apelido que tem: o Pinot do Sul. Presente nos nossos vinhos: MGO, Le Vallon

Carignan N (43228 ha na França): Originária da Espanha, casta tradicional dos vinhedos da periferia mediterrânea, que exige calor, resiste à seca e ao vento, e bem adaptada aos terroirs quentes e secos.Em condições pouco férteis, ela dá vinhos de bela cor, estruturados, bastante potentes com graduação alcoólica elevada e prontos para o envelhecimento. Na França ela é encontrada na maioria das apelações controladas do Languedoc e do Roussillon e também na Côtes-du-Rhône. Presente nos nossos vinhos: Calice, Petit Taureau

Existem centenas de pequenas castas esquecidas e desprezadas…. Vale pensar quantos gostos, aromas, cores que estão por aí enquanto elas ainda existem. Essa busca é uma busca interior também para encontrar e partilhar as descobertas…..

“Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.”
Se eu te pudesse dizer, Fernando Pessoa

Fontes:
http://rencontres-des-cepages-modestes.com/
http://plantgrape.plantnet-project.org/fr/cepages
http://www.lemonde.fr/vins/article/2016/12/08/selection-de-livres-pour-les-amoureux-du-vin_5045866_3527806.html